sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Uma pequena exegese de Fl 4:13

“Posso todas as coisas naquele que me fortalece” Fl 4:13.

Esta afirmativa do apóstolo Paulo, assim como muitas outras contidas nos Sagrados Escritos, é mal compreendida por um número significativo de irmãos protestantes. Quem nunca ouviu algum pregador, ou até mesmo cantor, logo após uma palavra emocional, de vitória ou algo do gênero, mesmo que sem malícia, de forma inocente, emplacar este versículo como conclusão de seu raciocínio?

Muitos irmãos pegam este verso, apenas ele, sem contexto e sem sistemática bíblica, para formular exegeses e conclusões totalmente sem respaldo bíblico, ferindo frontalmente os princípios hermenêuticos, principalmente no meio neo-pentecostal, aonde a "Confissão Positiva" e a "Determinação" andam de braços dados orientando toda a sistemática doutrinária restante. Mas, infelizmente, como crente é um ser que parece gostar muito de novidades, principalmente daquilo que foge a esfera de sua denominação, este equívoco em relação ao verso em análise está tomando conta do meio pentecostal clássico.

Conclusões como: se posso tudo, posso ficar sem adoecer; se posso tudo, posso ficar sem passar necessidades; se posso tudo, posso sempre andar de carro novo; se posso tudo, posso sempre me ver livre da pobreza e ter tudo o que eu quero; se posso tudo, posso realizar todos os meus sonhos (os meus, e não os planos de Deus!); se posso tudo, posso sair ressuscitando mortos e curando a todos os enfermos que vejo pela frente, como se fosse o próprio Deus; e são muitas as conjecturas heréticas que vem sendo formuladas por irmãos mal esclarecidos, formando verdadeiros crentes super-poderosos, com o atributo divino da onipotência.

Mas afinal de contas, o que Paulo quis ensinar ao pronunciar tal afirmação? A resposta se encontra nos versos que precedem a esta conclusão de Paulo. A partir do verso 10, Paulo passa a comentar e agradecer as ajudas que houvera recebido dos irmãos filipenses, isto mesmo, ajuda, pois Paulo sabia muito bem o que era passar lutas para sobreviver. Apenas a leitura dos versos 11 e 12 já mostram o real significado do verso 13: “Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade” Fl 4:11,12. Que contradição das palavras de Paulo com o que é pregado hoje em nossos dias! Oras, um homem sábio que nem Paulo, reconhecidamente usado por Deus, chegar a dizer que tinha aprendido a se contentar com o que tinha; afirmar que sabia estar abatido e sabia ter em abundância; afirmar que estava, em TODA maneira e em TODAS as coisas, devidamente instruído, tanto a ter fartura, como ter fome, bem como a saber lhe dar com a abundância e a necessidade. Percebas que Paulo não prega a teologia da miserabilidade, muito menos também prega a teologia da prosperidade (ou de que tudo vai bem, obrigado), apesar de percebermos que a situação em questão do apóstolo era de aflição (cf. verso 14). Paulo apenas prega que não temos o poder de evitar os infortúinos indesejáveis que ocorrem na vida de qualquer pessoa nesta terra; e também não é este o propósito de Deus para o homem aqui, incluindo os crentes em Jesus.

Ao concluir com a frase “Posso todas as coisas naquele que me fortalece”, dita imediatamente após a situação dele descrita nos versos 11 e 12 supra citados, Paulo deixa claro que ele, bem como todos os crentes, são capazes de, por Cristo, passar firmes e fiéis na fé por toda e qualquer prova e dificuldade. Percebemos que o crente está passível, assim como o ímpio, a padecer necessidades, lutas, enfermidades, bem como a ser agraciado com saúde, prosperidade e bonança. Como bem disse Salomão em Ec 7:14,15No dia da prosperidade goza do bem, mas no dia da adversidade considera; porque também Deus fez a este em oposição àquele, para que o homem nada descubra do que há de vir depois dele. Tudo isto vi nos dias da minha vaidade: há justo que perece na sua justiça, e há ímpio que prolonga os seus dias na sua maldade”. No mesmo sentido vem Ec 9:2,3 “Tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio, ao bom e ao puro, como ao impuro; assim ao que sacrifica como ao que não sacrifica; assim ao bom como ao pecador; ao que jura como ao que teme o juramento. Este é o mal que há entre tudo quanto se faz debaixo do sol; a todos sucede o mesmo”. Ver ainda Ec 3:1-8.

Ao lermos as palavras do próprio Paulo em Rm 8:35-39 “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; Somos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor”, percebemos claramente que o apóstolo viveu todas estas situações nada agradáveis, e com isso pergunto: Paulo queria mesmo passar por tudo isso? Será que ele nunca pediu para se ver livre de todos estes males? Pelas Escrituras percebo que ele não queria passar por tudo isso, aonde vejo o apóstolo pedindo a Deus três vezes para que Ele tirasse o “espinho na carne” que ele tinha, mas qual fora a resposta de Deus? “A minha graça te basta” 2 Co 12:7; conjecturo desta forma, sem cometer nenhuma heresia, que Paulo também não queria ter passado pelas situações descritas em Rm 8:35-39, até porque, quem iria querer passar por tudo aquilo? Oras, se Paulo podia tudo, então porque ele não se livrou destas situações? Ou melhor: porque ele mesmo não tirou o seu espinho na carne?

Portanto, meus amados irmãos, nunca tenhamos em nossa mente a falsa idéia de que podemos tudo, de que somos super-poderosos, super-crentes. O nosso “poder tudo” é em Cristo, ou seja, devemos antes de tudo andarmos em comunhão com Ele, para que só assim possamos viver, pela Sua graça, uma vida fiel a Sua Palavra.

Que o Senhor dê entendimento e sabedoria ao seu Povo, para que não seja levado pelo engodo e pereça (Os 4:6), devido a falta de conhecimento da Palavra (Mt 22:29; Jo 5:39).

E mais: Um conhecimento de Teologia também não faz mal a ninguém!

Com amor em Cristo e em defesa da Bíblia, sempre querendo ver o bem para a Igreja do Senhor,

Anchieta Campos

2 comentários:

Vitor Hugo da Silva disse...

Meu amado irmão Anchieta!!

Belo estudo exegético!

Sempre passo por aqui, porém me falta tempo para postar. Seu BLOG é caminho de roça - como dizem aqui em Santa Catarina - quando navego pela internet. Ou seja, é caminho obrigatório.

Deus o abençoe grandemente!
Vitor Hugo.

Anchieta Campos disse...

Caro irmão Vitor Hugo, a Paz do Senhor!

O amado sabe que suas palavras neste humilde blog muito me honram e enriquecem este espaço. Sou infinitamente grato pela sua confiança e atenção para com o meu blog. Saiba que a recíproca é a mais pura verdade! Comigo também as vezes falta tempo para comentar seu blog, mas é de leitura sempre obrigatória.

Deus o honrará grandemente meu amado!

Anchieta Campos