quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Páscoa e suas particularidades

A Páscoa (hb. Pesah; gr. Πάσχα -Páska-; lat. Pascha) é uma festa que biblicamente se reveste de uma suma importância e sinal comemorativo/memorativo, tanto para judeus quanto para os cristãos, onde o seu modo de ser e prática atual (principalmente no meio católico romano) difere bastante de sua realização e significado bíblico, sendo recheada de figuras que realmente não tem nada a ver com o evento, como o “ovo da Páscoa” e “o coelho da Páscoa”, além de certas tradições sem pé nem cabeça, principalmente para a igreja neo-testamentária, como por exemplo a proibição de se comer carne, e a malhação do Judas, onde a figura deste acaba tomando mais destaque que a de Cristo. A data e o culto ao evento fora estabelecida no primeiro Concílio de Nicéia, no ano de 325.

A Páscoa é uma das três festas (conhecidas como ‘festas dos peregrinos’) em que todos os judeus estavam obrigados a participar, juntamente com a festa do Pentecostes e dos Tabernáculos, onde após a construção do Templo o Senhor ordenou que a Páscoa fosse celebrada em Jerusalém (cf. Dt 16:1-6); antes do Templo os judeus celebravam a Páscoa em suas casas, onde os pais relembravam e contavam aos seus filhos o milagroso evento da Páscoa, como o destruidor poupou aos hebreus (cf. Êx 12:23-27).

No ano (aproximado) de 1445 a.C., após mais de quatrocentos anos de escravidão no Egito, Deus, por sua infinita graça e amor, resolve libertar o seu povo dessa situação humilhante; para tanto o Senhor sucinta Moisés como líder e libertador do povo judeu, e como um “porta-voz” Seu, tanto para os judeus quanto para Faraó. Moisés, sob as ordens e autoridade de Deus, conclama Faraó a libertar o povo judeu, onde o mesmo nega-se a tal, seguindo-se assim sucessivas pragas, onde sempre ao cessar de cada uma delas Faraó voltava atrás e não libertava o povo hebreu (ver o meu post Faraó, predestinação e livre arbítrio). Chegou então o momento da décima e derradeira praga se manifestar, que era a morte de todo o primogênito na terra do Egito, tanto de homens como de animais (cf. Êx 12:12). Mas Deus, para livrar os primogênitos de Israel, instituiu um sinal para o povo hebreu, que os livraria da praga da mortandade dos primogênitos: cada casa deveria tomar para si um cordeiro (se a família fosse pequena para um cordeiro, poderia juntar-se com o vizinho), onde o cordeiro ou o cabrito deveria ser sem mácula, macho de um ano, sendo sacrificado ao décimo quarto dia do primeiro mês, o mês de Abibe, também conhecido como Nisã, que corresponde no nosso calendário gregoriano entre 22 de março e 25 de abril (a data exata do décimo quarto dia de Abibe varia em razão do calendário judeu ser lunar, enquanto o cristão -gregoriano- ser solar). Com o sacrifício do cordeiro, os hebreus deveriam tomar do seu sangue e passá-lo sobre as ombreiras e na verga da porta de cada casa que havia comido do mesmo; a carne deveria ser comida somente assada e com pães asmos (sem fermento) e ervas amargosas; a ordem era para ser comido todo o cordeiro, mas caso ficasse algo, deveria ser queimado no fogo. Sendo assim, o sangue do cordeiro seria por sinal ao Senhor, que pouparia os primogênitos da casa onde visse o sangue (todo esse cenário conforme Êx 12:1-13). Esta é a Páscoa do Senhor. É claro que o Senhor sabia qual casa era ou não de hebreus, mas todo este cenário serviria justamente para ensinar a obediência ao Senhor, além de ensinar e apontar sobre algo futuro. Por fim, o Senhor estabelece a festa da Páscoa como memória, devendo ser realizada anualmente pelos judeus, perpetuamente, no dia quatorze do primeiro mês, na primavera judaica (cf. Êx 12:14; Lv 23:4,5; Nm 9:1-14; 28:16; Dt 16:1-6).

A Páscoa, portanto, fora o evento que marcou a libertação do povo hebreu do Egito e o dia em que foram poupados por Deus do seu justo juízo contra o pecado. E é justamente esse o sentido da palavra Páscoa, do hebraico pesah, que significa “pular além da marca”, “passar por cima”, “poupar”.

Agora, nós aprendemos com a Bíblia que o Novo Testamento, a Nova e Eterna Aliança, nos concede o perfeito entendimento das sombras e alegorias que se encontram no Antigo Testamento (cf. Jo 3:14; Gl 3:15-29; 4:21-31; Cl 2:17; Hb 8:5-13; 9:1-12; 10:1). Assim nós podemos perfeitamente realizar um paralelo entre a Páscoa judia e o sacrifício de Cristo, o qual é o Cordeiro de Deus, sem pecado e sem mácula (2 Co 5:21; Hb 4:15), que morreu pelos nossos pecados (Rm 5:6; Rm 8:34; 1 Co 15:3), aquele Cordeiro que tira o pecado do mundo (Jo 1:29,36), sendo o seu sangue puro e sem pecado a causa da nossa justiça e salvação, nos livrando do juízo que Deus realiza contra o pecado (1 Pe 1:18,19; 1 Jo 1:7; Ap 1:5; 5:9; 7:14; 12:11; Hb 9:12-26; 10:19; 13:12,20; Cl 1:14,20; Ef 1:7; Rm 3:25; 5:9).

Cristo, verdadeiramente, é a nossa Páscoa: “Alimpai-vos, pois, do fermento velho, para que sejais uma nova massa, assim como estais sem fermento. Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” 1 Co 5:7. O fato de Jesus ter sido crucificado na Páscoa (Mt 26:2; Mc 14:1), já nos mostra a relação simbólica e de efeito entre a Páscoa judia do Egito e o sacrifício de Cristo em nosso favor. Cristo é a nossa libertação do cativeiro do Egito, do cativeiro da escravidão do pecado! Seu sangue puro vertido em seu sacrifício nos garante o livramento da condenação do pecado! Sua morte e ressurreição nos garante uma nova vida cheia de esperança, liberdade e paz, e não mais uma vida de condenação e escravidão que tínhamos no Egito do pecado!

Jesus, como perfeito judeu que fora, realizou a Páscoa em sua vida (Jo 2:13,23). Jesus fora com seus pais a Jerusalém quando tinha seus 12 anos de idade, justamente para celebrar a Páscoa (Lc 2:41,42). A própria Ceia que Jesus realizou com os seus discípulos em Jerusalém, pouco antes de ser preso e crucificado, foi uma refeição da Páscoa (Mt 26:17-28; Mc 14:12-26; Lc 22:8-20).

A Ceia do Senhor (ver meu artigo Compreendendo a Santa Ceia) é a nossa Páscoa, a Páscoa da Igreja, tendo sido instituída pelo próprio Cristo, com o mesmo intuito de se relembrar algo, só que não relembrar a Páscoa do Egito (mesmo que esta venha à nossa mente, o que é bom), mas sim relembrarmos a sua morte vicária em nosso favor (Lc 22:19; 1 Co 11:23-26). Não necessitamos para se celebrar a Páscoa de fazer que nem fora instituído aos judeus; não precisamos sacrificar um cordeiro sem mácula no décimo quarto dia do mês judaico do Abibe, nem comermos dos pães asmos (ver meu artigo Devemos usar pães asmos na Ceia das igrejas?) e das ervas amargosas, muito menos devemos nos abster de carne como prega o catolicismo romano (ver meu artigo É pecado comer carne?), até pela razão de a páscoa judia ter sido celebrada com carne assada, como bem ficou exposto até o momento, além de o próprio Deus ter ordenado que não sobrasse nada da carne do cordeiro (Êx 12:9,10); lembre-se ainda que o Rei Josias doou ao povo de Israel para o sacrifício da Páscoa, 30 mil cabritos e cordeiros, além de 3 mil bois, também do Rei, sem falar (mas já falando) das ofertas dos príncipes do Rei, que ofertaram também 2.600 reses de gado miúdo, além das ofertas dos chefes dos levitas, que fora de 5 mil reses de gado e 500 bois (cf. 2 Cr 35:7-9)! E tome carne! A abstinência ou não de carne na Páscoa é irrelevante; o erro recai na proibição, como já fora exposto aqui (1 Tm 4:3). O jejum e consagração devem ser voluntários, não forçados, e que não se torne conhecido do público, com o fim de ostentação pessoal (1 Co 7:5; Lc 2:37; 18:12; At 14:23; Mt 6:16-18).

A nossa Páscoa, como já fora dito, é Jesus. Celebramos a memória de Cristo toda vida que realizamos a Ceia do Senhor. Devemos celebrar a nossa Páscoa sobre o crivo de 1 Co 11:23-34, sendo bem sintetizado por Paulo em 1 Co 5:8: “Por isso façamos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade”. Toda Ceia é Páscoa! Toda semana é santa, todo dia é santo “Em santidade e justiça perante ele, todos os dias da nossa vida” Lc 1:75 (cf. Lc 9:23; At 2:46; Hb 3:13). Devemos andar em santidade, retidão e temor todos os dias de nossas vidas. Celebrarmos a Páscoa de um modo especial na “semana santa” não é pecado nem errado; podemos usar desta data para relembrarmos (assim como fazemos em toda Santa Ceia) o sacrifício de Cristo em nosso favor, a nossa liberdade do cativeiro do pecado, a fidelidade de Deus para com os judeus, o poder com o qual Deus libertou o povo hebreu, e etc.; agora, o que não vale mesmo é aderirmos a práticas e tradições humanas (oriundas de culturas não cristãs e judaicas) sem nenhum respaldo bíblico, como são o “ovo da Páscoa” e o “coelho da Páscoa” (frise-se que coelho não põe ovos!), que não passam de símbolos que só vem a roubar o espaço da Páscoa que é unicamente de Cristo, além de não passarem de objetos comerciais, apoiados pelas indústrias que lucram com a data da Páscoa.

Atualmente os judeus continuam a celebrar a Páscoa (chamada de Seder), mesmo com algumas alterações do modo vero-testamentário, onde, por exemplo, não se tem mais o Templo em Jerusalém para a celebração nacional da festa no mesmo (cf. Dt 16:1-6), além de não ser celebrada com o cordeiro assado (cf. Êx 12:9). Mesmo assim ainda ocorre a reunião familiar para a celebração da data, onde os membros da família retiram-se cerimonialmente das casas e o pai da família narra toda a história do êxodo judeu, conforme os Santos Escritos.

Por fim, desejo a todos uma ótima Páscoa! Não somente nessa “semana santa”, mas por toda a nossa vida, adentrando no reino eterno do Cordeiro “Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro” Ap 19:9.

Anchieta Campos

4 comentários:

João Paulo disse...

Meu nobre... Parabéns pelo blog, em especial a esta postagem. Muito importante. Bastante fundamentada e esclarecedora. Muito bom mesmo! Meus sinceros parabéns!

Anchieta Campos disse...

Caro irmão João Paulo, a paz do Senhor.

Muito obrigado por sua valorosa visita, bem como pelas palavras de apoio e incentivo, as quais muito me ajudam.

Deus te abençoe grandemente.

Abraço.

Anchieta Campos

Marcelo Oliveira disse...

Nobre irmão Anchieta, a paz do Senhor!

Este estudo sobre a Páscoa sua origem e particularidades enriquece a blogosfera!

Em nossos dias existe um conceito deturpado da Páscoa e seu real significado. Pelo que vejo existe atualmente três Páscoa: a judaica, a cristã e a comercial pagã.

Nos cristãos e salvos em Cristo devemos celebrar somente a Cristo a nossa Páscoa.

Abraço!

Anchieta Campos disse...

Caro irmão Marcelo Oliveira, a paz do Senhor.

Muito obrigado por suas palavras de apoio e incentivo, as quais verdadeiramente muito me honram e motivam.

Sua observação fora bastante peculiar e certa. A triste realidade é que a páscoa comercial é disparada a mais difundida e praticada. Contudo, a páscoa bíblico-cristã, a que celebramos, mesmo sendo minoria, é a que é aceita e recebida por Deus, sendo isso que realmente conta.

Forte abraço.

Anchieta Campos