sábado, 5 de julho de 2008

Pode-se comparar o sofrimento de Cristo com o de algum homem?

“Cristo nem tinha necessidade deste sofrimento, mas nós e toda humanidade é que precisávamos de semelhante sofrimento; ele quer ser um presente, a nós oferecido e dado por pura graça e misericórdia”,

“A paixão de Cristo deve ser contemplada de duas maneiras: primeiramente como história, tal como acabamos de lê-la. Devemos saber que temores e tormentos ele sofreu, antes de tudo em seu coração, mas muito mais em seus membros. Não houve nele nem uma veia sequer que não fora invadida e traspassada pela mais amarga dor” frases de Lutero.

“Neste mundo as pessoas que mais sofreram foram Jesus Cristo e Fulanilton”. Frases como essas às vezes causam muito alvoroço, principalmente quando pronunciadas por pessoas crentes, tendo conseqüências maiores ainda se forem ditas por líderes evangélicos. Muitos escândalos e prejuízos acabam sendo o fruto de pronunciamentos impensados como estes.

Respondendo mais diretamente ao questionamento do título do post, a resposta é claro que é um NÃO. O sofrimento de Cristo foi, de longe, o maior que um homem já padeceu, tanto em seu aspecto físico quanto no psicológico/espiritual. É inconcebível realizar-se uma comparação entre o sofrimento do nosso Salvador com o de qualquer homem, principalmente quando esta comparação parte de uma pessoa de destaque no meio protestante.

Existem várias passagens e escritores vero-testamentários que apontam em um plano profético para o Messias e seu sofrimento, são as chamadas passagens messiânicas e autores messiânicos. Dentre elas gostaria de destacar o Salmo 22:1-18 e Isaías 53, textos que transcrevo a seguir:

“DEUS meu, Deus meu, por que me desamparaste? Por que te alongas do meu auxílio e das palavras do meu bramido? Deus meu, eu clamo de dia, e tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego. Porém tu és santo, tu que habitas entre os louvores de Israel. Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os livraste. A ti clamaram e escaparam; em ti confiaram, e não foram confundidos. Mas eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo. Todos os que me vêem zombam de mim, estendem os lábios e meneiam a cabeça, dizendo: Confiou no SENHOR, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer. Mas tu és o que me tiraste do ventre; fizeste-me confiar, estando aos seios de minha mãe. Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe. Não te alongues de mim, pois a angústia está perto, e não há quem ajude. Muitos touros me cercaram; fortes touros de Basã me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge. Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram; o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas. A minha força se secou como um caco, e a língua se me pega ao paladar; e me puseste no pó da morte. Pois me rodearam cães; o ajuntamento de malfeitores me cercou, traspassaram-me as mãos e os pés. Poderia contar todos os meus ossos; eles vêem e me contemplam. Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sortes sobre a minha roupa” Salmo 22:1-18. Este Salmo, embora escrito por Davi, aponta para o sofrimento de Cristo, como bem demonstra a sistemática com Mt 27:35,46; Mc 15:24,34; Jo 19:24.

Sendo mais claro e apontando diretamente para Cristo, Isaías descreve com detalhes o sofrimento de Jesus no capítulo 53 de seu livro:

“QUEM deu crédito à nossa pregação? E a quem se manifestou o braço do SENHOR? Porque foi subindo como renovo perante ele, e como raiz de uma terra seca; não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos. Era desprezado, e o mais rejeitado entre os homens, homem de dores, e experimentado nos trabalhos; e, como um de quem os homens escondiam o rosto, era desprezado, e não fizemos dele caso algum. Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos. Ele foi oprimido e afligido, mas não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, assim ele não abriu a sua boca. Da opressão e do juízo foi tirado; e quem contará o tempo da sua vida? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; pela transgressão do meu povo ele foi atingido. E puseram a sua sepultura com os ímpios, e com o rico na sua morte; ainda que nunca cometeu injustiça, nem houve engano na sua boca. Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do SENHOR prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores” Isaías 53. Este relato, rico e preciso, feito 700 anos antes de Cristo, é um dos trechos mais sublimes de toda a Bíblia. Um relato emocionante do sofrimento do Cristo, onde percebemos o quanto Ele padeceu, não somente fisicamente, mas também psicologicamente/emotivamente/espiritualmente.

No Novo Testamento aí é que as narrativas são fartas. Os relatos contidos em Mt 26:36-68; 27:11-56; Mc 14:32-72; 15:1-41; Lc 22:39-71; 23:1-48; Jo 18:1-40; 19:1-37, nos mostram, cada evangelho com a sua característica, mas todos com harmonia, o sofrimento, rejeição, humilhação, dor, tristeza e angústia pelas quais Jesus passou. Destaco passagens como: “começou a entristecer-se e a angustiar-se muito”, “A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo”, “Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice”, “todos os discípulos, deixando-o, fugiram”, “E, tecendo uma coroa de espinhos, puseram-lha na cabeça, e em sua mão direita uma cana; e, ajoelhando diante dele, o escarneciam, dizendo: Salve, Rei dos judeus. E, cuspindo nele, tiraram-lhe a cana, e batiam-lhe com ela na cabeça”, “E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lamá sabactâni; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, “E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão”, dentre outras muitas passagens que retrataram (pelo menos tentaram retratar) o sofrimento vivido por Cristo.

O médico francês Barbet descreve um pouco, sob a ótica médica, o sofrimento de Cristo:

“Jesus entrou em agonia no Getsêmani e seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra. O único evangelista que relata o fato é um médico, Lucas.

E o faz com a decisão de um clínico. O suar sangue, ou "hematidrose", é um fenômeno raríssimo. É produzido em condições excepcionais. Para provocá-lo é necessário uma fraqueza física, acompanhada de um abatimento moral violento causado por uma profunda emoção, por um grande medo.

O terror, o susto, a angústia terrível de sentir-se carregando todos os pecados dos homens devem ter esmagado Jesus.

Tal tensão extrema produz o rompimento das finíssimas veias capilares que estão sob as glândulas sudoríparas, o sangue se mistura ao suor e se concentra sobre a pele, e então escorre por todo o corpo até a terra.

Pilatos cede, e então ordena a flagelação de Jesus. Os soldados despojam Jesus e o prendem pelo pulso a uma coluna do pátio. A flagelação se efetua com tiras de couro múltiplas sobre as quais são fixadas bolinhas de chumbo e de pequenos ossos.

Os carrascos devem ter sido dois, um de cada lado, e de diferente estatura. Golpeiam com chibatadas a pele, já alterada por milhões de microscópicas hemorragias do suor de sangue. A pele se dilacera e se rompe, o sangue espirra. A cada golpe Jesus reage em um sobressalto de dor.

As forças se esvaem; um suor frio lhe impregna a fronte, a cabeça gira em uma vertigem de náusea, calafrios lhe correm ao longo das costas. Se não estivesse preso no alto pelos pulsos, cairia em uma poça de sangue. Depois o escárnio da coroação. Com longos espinhos, mais duros que os de acácia, os algozes entrelaçam uma espécie de capacete e o aplicam sobre a cabeça. Os espinhos penetram no couro cabeludo fazendo-o sangrar (os cirurgiões sabem o quanto sangra o couro cabeludo).

Pilatos, depois de ter mostrado aquele homem dilacerado à multidão feroz, o entrega para ser crucificado. Colocam sobre os ombros de Jesus o grande braço horizontal da Cruz; pesa uns cinqüenta quilos. A estaca vertical já está plantada sobre o Calvário. Jesus caminha com os pés descalços pelas ruas de terreno irregular, cheias de pedregulhos. Os soldados o puxam com as cordas. O percurso, é de cerca de 600 metros. Jesus, fatigado, arrasta um pé após o outro, freqüentemente cai sobre os joelhos. E os ombros de Jesus estão cobertos de chagas.
Quando ele cai por terra, a viga lhe escapa, escorrega, e lhe esfola o dorso.

Sobre o Calvário tem início a crucificação. Os carrascos despojam o condenado, mas a sua túnica está colada nas chagas e tirá-la produz dor atroz. Quem já tirou uma atadura de gaze de uma grande ferida percebe do que se trata. Cada fio de tecido adere à carne viva: ao levarem a túnica, se laceram as terminações nervosas postas em descoberto pelas chagas.

Os carrascos dão um puxão violento. Há um risco de toda aquela dor provocar uma síncope, mas ainda não é o fim.

O sangue começa a escorrer. Jesus é deitado de costas, as suas chagas se incrustam de pó e pedregulhos. Depositam-no sobre o braço horizontal da cruz. Os algozes tomam as medidas.
Com uma broca, é feito um furo na madeira para facilitar penetração dos pregos.

Os carrascos pegam um prego (um longo prego pontudo e quadrado), apoiam-no sobre o pulso de Jesus, com um golpe certeiro de martelo o plantam e o rebatem sobre a madeira.
Jesus deve ter contraído o rosto assustadoramente. O nervo mediano foi lesado.

Pode-se imaginar aquilo que Jesus deve ter provado; uma dor lancinante, agudíssima, que se difundiu pelos dedos, e espalhou-se pelos ombros, atingindo o cérebro.

A dor mais insuportável que um homem pode provar, ou seja, aquela produzida pela lesão dos grandes troncos nervosos: provoca uma síncope e faz perder a consciência.Em Jesus não. O nervo é destruído só em parte: a lesão do tronco nervoso permanece em contato com o prego: quando o corpo for suspenso na cruz, o nervo se esticará fortemente como uma corda de violino esticada sobre a cravelha. A cada solavanco, a cada movimento, vibrará despertando dores dilacerantes. Um suplício que durará três horas.

O carrasco e seu ajudante empunham a extremidade da trava; elevam Jesus, colocando-o primeiro sentado e depois em pé; conseqüentemente fazendo-o tombar para trás, o encostam na estaca vertical. Depois rapidamente encaixam o braço horizontal da cruz sobre a estaca vertical. Os ombros da vítima esfregam dolorosamente sobre a madeira áspera.
As pontas cortantes da grande coroa de espinhos penetram o crânio. A cabeça de Jesus inclina-se para frente, uma vez que o diâmetro da coroa o impede de apoiar-se na madeira. Cada vez que o mártir levanta a cabeça, recomeçam pontadas agudas de dor.

Pregam-lhe os pés. Ao meio-dia Jesus tem sede. Não bebeu desde a tarde anterior. Seu corpo é uma máscara de sangue. A boca está semi-aberta e o lábio inferior começa a pender. A garganta, seca, lhe queima, mas ele não pode engolir. Tem sede. Um soldado lhe estende sobre a ponta de uma vara, uma esponja embebida em bebida ácida, em uso entre os militares.

Tudo aquilo é uma tortura atroz. Um estranho fenômeno se produz no corpo de Jesus. Os músculos dos braços se enrijecem em uma contração que vai se acentuando: os deltóides, os bíceps esticados e levantados, os dedos, se curvam. É como acontece a alguém ferido de tétano. A isto que os médicos chamam tetania, quando os sintomas se generalizam: os músculos do abdômen se enrijecem em ondas imóveis, em seguida aqueles entre as costelas, os do pescoço, e os respiratórios. A respiração se faz, pouco a pouco mais curta. O ar entra com um sibilo, mas não consegue mais sair. Jesus respira com o ápice dos pulmões. Tem sede de ar: como um asmático em plena crise, seu rosto pálido pouco a pouco se torna vermelho, depois se transforma num violeta purpúreo e enfim em cianítico.

Jesus é envolvido pela asfixia. Os pulmões cheios de ar não podem mais esvaziar-se. A fronte está impregnada de suor, os olhos saem fora de órbita. Mas o que acontece? Lentamente com um esforço sobre-humano, Jesus toma um ponto de apoio sobre o prego dos pés. Esforça-se a pequenos golpes, se eleva aliviando a tração dos braços. Os músculos do tórax se distendem. A respiração torna-se mais ampla e profunda, os pulmões se esvaziam e o rosto recupera a palidez inicial.

Por que este esforço? Porque Jesus quer falar: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem". Logo em seguida o corpo começa afrouxar-se de novo, e a asfixia recomeça.
Foram transmitidas sete frases pronunciadas por ele na cruz: cada vez que quer falar, deverá elevar-se tendo como apoio o prego dos pés. Inimaginável!

Atraídas pelo sangue que ainda escorre e pelo coagulado, enxames de moscas zunem ao redor do seu corpo, mas ele não pode enxotá-las. Pouco depois o céu escurece, o sol se esconde: de repente a temperatura diminui. Logo serão três da tarde, depois de uma tortura que dura três horas. Todas as suas dores, a sede, as cãibras, a asfixia, o latejar dos nervos medianos, lhe arrancam um lamento:

"Deus meu, Deus me, por que me desamparastes?"

Jesus grita:

"Está consumado!". Em seguida num grande brado diz: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". E morre... Em meu lugar... e no seu!”
(extraído de http://www.picarelli.com.br/mens_melgibson.htm).

Pois é, depois de tudo isto, acho no mínimo ridículo tentar comparar o sofrimento que Jesus passou com o de algum outro homem que viveu ou vive nesta terra, principalmente quando esta comparação é motivada por motivos torpes, gananciosos e de interesses puramente humano e secular.

Anchieta Campos, em defesa do nome de JESUS.

4 comentários:

João Paulo Mendes disse...

Paz do Senhor irmão Anchieta,

Realmente o sofrimento do Mestre é indescritivel em sua totalidade e inconparável, nós, servos inúteis se fizessemos tudo quanto nos manda o mestre, não podemos nunca ousar dizer que sofremos igual ou de parecida forma como Ele.
A Ele seja a honra e Glória, e que sua misericórida esteja sempre sobre nós, que o Senhos nos ajude a supoportar nossa leve e momentanea tribulação.

JP

Anchieta Campos disse...

Nobre irmão João Paulo, a paz do Senhor.

Como sempre seus comentários são perfeitamente complementares.

Seja sempre Deus engrandecido, exaltado, glorificado. E o homem seja sempre pequeno, humilde e reconhecedor de quem ele é perto do Eterno. Em todos os aspectos, incluindo o grande sofrimento pelo qual passou o Mestre em detrimento da nossa leve e momentânea tribulação.

Abraços.

Anchieta Campos

james disse...

A Graça e a Paz estejam convosco, amado irmão Anchieta.

Jesus nos deu Seu sublime exemplo, de uma vida em perfeita Vontade de agradar ao Pai, e, por final ainda subiu num madeiro para nos resgatar ao Pai, sendo Ele consumado, veio a ser causa de eterna salvação para todos os que lhe obedecem...

Em vão é o Amor de Jesus e Seu sofrimento, diante daqueles que querem comparar seus sofrimentos ao de nosso Amado Mestre e Senhor, mas nós, "servos inúteis" devemos nos colocar na posição de "Eis que sou vil" (Jó 40.4), "pobre e necessitado" (Salmo 40.7), simplesmente "homem" (Atos 10.26), e "miserável" (Romanos 7.24)...

Deus seja louvado!

Fraternalmente.
James.

Anchieta Campos disse...

Caro irmão James, a paz do Senhor.

Excelente comentário! A Bíblia é bem clara em mostrar que em nada podemos nos comparar a Deus, incluindo o sofrimento pelo qual passou o Mestre Jesus com a nossa "leve e momentânea tribulação", como bem disse o Apóstolo Paulo.

Abraços fraternos!

Anchieta Campos