sábado, 5 de setembro de 2009

Dízimo, graça e maldição

É comum vermos em nosso meio frases do tipo: “Irmão, se você não der o dízimo você vai ser amaldiçoado!”, “Se quiser ser abençoado e repreender o devorador, dê o dízimo!”, e alguns vão mais além e colocam o dízimo como um fator indispensável para a salvação. Mas, afinal de contas, qual a posição do dízimo para a Igreja do Senhor Jesus? É ele um meio objetivo de se conseguir as bênçãos de Deus? A sua não observância resulta em maldição para o cristão? O que a Bíblia, principalmente o Novo Testamento, ensina a respeito do dízimo? Vamos procurar de forma sucinta e objetiva responder a estas perguntas.

O dízimo é uma obrigação para a Igreja?

Não, o dízimo não é uma obrigação para o cristão. Diferentemente da Antiga Aliança, onde fora determinado que Israel entregasse o dízimo (Lv 27:30-32; Nm 18:21-28; Dt 12:6,11,17; 14:22; Ml 3:10), não vemos no Novo Testamento nenhum ensino em relação ao dízimo com o mesmo tom imperativo da Antiga Aliança.

A passagem de Mt 23:23 (cf. Lc 11:42) é destinada aos judeus, e não aos cristãos. Já em relação ao dízimo de Abraão (Hb 7:2-9), tem-se que o mesmo, bem como o de Jacó, não passaram de atos de gratidão meramente voluntários (Gn 14:20; 28:20-22), sem nenhuma imposição escrita da parte de Deus, haja vista estas ofertas terem sido realizadas bem antes da instituição da lei.

Simplesmente não vemos em todo o Novo Testamento nenhum registro do exercício do dízimo na Igreja! Vemos que toda e qualquer espécie de contribuição financeira era realizada sob os moldes da voluntariedade (2 Co 8:3,11,12; 9:1,2,7) e da proporcionalidade das rendas de cada um (1 Co 16:2; 2 Co 8:12), mas nunca sob o crivo matemático dos 10%. Lembremo-nos do clássico caso de Ananias e Safira (At 5:1-10), onde percebemos no versículo 4 que Ananias detinha o total poder sobre o preço da herdade, não se reservando a décima parte para oferta. Ele poderia dar algum valor em oferta ou não; poderia dar a metade (Lc 19:8), tudo (Lc 21:2-4), uma terça parte, ou poderia, como bem disse Pedro, não dar nada.

É claro que nós, como cristãos, temos a responsabilidade bíblica de contribuir financeiramente para diversos fins. Valiosa é a observação do memorável teólogo Donald C. Stamps, em sua Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD), no estudo “Dízimos e Ofertas”:

“Nossas contribuições devem ser para a promoção do reino de Deus, especialmente para a obra da igreja local e a disseminação do evangelho pelo mundo (1 Co 9.4-14; Fp 4.15-18; 1Tm 5.17,18), para ajudar aos necessitados (Pv 19.17; Gl 2.10; 2 Co 8.14; 9.2), para acumular tesouros no céu (Mt 6.20; Lc 6.32-35) e para aprender a temer ao Senhor (Dt 14.22,23)”.

Destaque-se que o próprio Stamps, no citado estudo, em nenhum momento afirma que o dízimo é uma prática obrigatória para a Igreja. E olha que estamos falando de uma das obras teológicas mais clássicas e difundidas do meio assembleiano, notavelmente respeitada em nosso meio.

A prática de dizimar garante a bênção de Deus?
Não, o mero ato do crente dizimar não garante, em hipótese alguma, as bênçãos de Deus sobre sua vida. Até mesmo na Antiga Aliança, onde os judeus tinham a promessa de Deus da bênção em decorrência do dízimo (Ml 3:10-12), podemos contemplar exortações como as constantes em Am 4:1-12, onde percebemos que o dízimo não era fator objetivo da proteção divina contra o justo juízo do próprio Deus. Como bem observou Donald Stamps, na já citada Bíblia de Estudo Pentecostal: “De nada valiam, pois, seus sacrifícios e dízimos”.

Semelhantemente de nada aproveitou, para a justificação perante Deus, os dízimos que o fariseu dava (Lc 18:9-14).

Lembremo-nos que não estamos, em hipótese alguma, em condições de barganhar com Deus as suas bênçãos (Mc 8:37; At 8:17-20; Rm 4:4).

Quem não observa o dízimo está sob maldição divina?

Outra vez, não. Como já exposto acima, o dízimo não é uma obrigação para o cristão, e em não sendo uma obrigação, tem-se por lógico que não há maldição para o cristão que não entrega o dízimo.

Conclusão

Podemos concluir que a prática de dizimar em si não detém valor fundamental na sistemática cristã, sendo a sua prática ou não mero fator secundário, coberto pela liberalidade da graça (cf. 2 Co 9:13). Quem pratica o dízimo com voluntariedade e alegria, com o intuito de ajudar a obra do Senhor, com certeza faz algo que agrada a Deus. Igualmente o cristão que contribui de modo racional com ofertas não delimitadas a 10%, seja para a manutenção da igreja local, de obras missionárias, ou até mesmo para ajudar aos pobres e necessitados, com certeza também estará agradando a Deus.

Lembremos, por fim, que as ofertas e dízimos devem ser para cobrir as necessidades de quem faz jus (cf. At 4:34,35; Rm 12:13; 2 Co 9:12; Ef 4:28; Fl 2:25), e nunca para enricar ninguém, seja pastor ou irmão em Cristo. O cristão é responsável pelo modo como “gasta” seu dinheiro (cf. Is 55:2), devendo fazer justiça sempre, até mesmo na hora de contribuir financeiramente para o Reino. Destinar ofertas e/ou dízimos para uma igreja mais necessitada não é errado, sendo inclusive bíblica tal prática (cf. Rm 15:26; 1 Co 16:1-3). Enfim: há muitas maneiras sadias de se contribuir financeiramente para a promoção do Reino de Deus.

Com amor,

Anchieta Campos

17 comentários:

Clóvis disse...

Anchieta,

A Assembléia de Deus está muito bem servida e deve dar graças a Deus por ter pessoas como você. Centrado e comprometido com a verdade bíblica.

Que o Senhor sempre o preserve assim.

Em Cristo,

Clóvis
Cinco Solas

Anchieta Campos disse...

Prezado irmão e amigo Clóvis, a paz do Senhor.

Muito obrigado por suas sempre generosas palavras de apoio e incentivo. Deus seja louvado por isto e o abençoe grandemente.

O meu sincero desejo é servir a Deus e a sua Palavra com o pouco que sei e tenho. E é bom saber que tenho no mesmo time pessoas nobres e cultas como você, as quais honram grandemente ao eterno Deus.

Verdadeiramente o meio reformado é abençoado por existirem mentes cativas a Palavra de Deus, como é o seu caso.

Forte abraço.

Anchieta Campos

Ednelson Rodrigo Sales Coelho disse...

Primeira visita ao seu blog e já o admirei pela centralidade na Palavra de Deus.Estou postando em meu blog de forma sistemática o livro O Dízimo e a Graça. Muito esclarecedor e profundo no sentido de alertar a massa cristã para essa "obrigatoriedade dizimal".Se tiver tempo, passe no meu blog e veja.Grande abç e continue assim, na milícia da bom combate até que nós nos encontremos na glória. Graça e paz!
Ednelson Coelho
www.edmaisbom.blogspot.com.

Anchieta Campos disse...

Prezado irmão Ednelson Rodrigo, a paz do Senhor.

Deus seja louvado por sua nobre visita em meu humilde espaço.

Visitei teu blog, e já o estou seguindo. Com certeza irei lê-lo em toda oportunidade.

Obrigado pelas generosas palavras, as quais muito me honram e motivam a continuar com este árduo, porém nobre, ofício.

Abraço.

Anchieta Campos

Leandro disse...

É isso aí Doutor. Particularmente sou dizimista, mas não concordo com determinadas práticas em nossa Igreja, como por exemplo se identificar num envelope,afinal o dízimo é para Deus ou para aparecer perante o público? Sempre entrego meu dízimo discretamente, fundado num compromisso meu com Deus, pois o comando da Igreja não emprega as finanças adequadamente e nem presta conta dos gastos. Isso me deixa muitas vezes triste, mormente ao ver o dinheiro de minha contribuição sendo gasto em regalias, festas mundanas, passeios, roupas de marcas, carros novos, etc. Enquanto irmãos passam necessidades financeiras e quando é preciso fazer alguma manutenção na Igreja as ofertas são arrecadas separadamente. Além de alguns obreiros promoverem membros por interesse financeiro, ou seja, vc só vale o que tem. Um colega Sargento disse que deixou de frequentar a Igreja porque depois que seu pai ficou em estado vejetativo um outro filho não crente que administrava o dinheiro,parou de pagar o dízimo, consequentemente o pai ficou esquecido das visitas do pastor, até mesmo no dia da morreu. Isso é um vergonha para o evangelho.
Parabéns pelo blog irmão Deus te abençoe!!

Anchieta Campos disse...

Prezado irmão e amigo Leandro Fontes, a paz do Senhor.

Concordo plenamente com as suas palavras.

Oxalá se tivessem mais crentes com a sua maturidade e senso bíblico de justiça! O mundo evangélico seria outro.

Forte abraço.

Anchieta Campos

Abraão disse...

Prezado irmão gostaria de aproveitar essa breve passadinha no seu blog para parabenizá-lo pela denodada dedicação ao bom e ineficaz esclarecimento. Concordo com seus comentários, pois muitos líderes olham com indiferença aos que pouco ou quase não dizimam. Sabemos que Deus abençoa ao que contribui de coração, sem esperar nada em troca. Infelizmente muitos dão e ficam a espera de um milagre.

Anchieta Campos disse...

Caro irmão Abraão, a paz do Senhor.

Infelizmente muitos pastores seguem o padrão humano de qualificar e tratar as pessoas por aquilo que possuem materialmente. Acabam indo frontalmente com os fundamentos morais e éticos da fé cristã. Tristeza.

Quanto a ofertar com o intuito de barganhar com Deus, é um absurdo imensurável. Oferta é gratidão, é não barganha!

Forte abraço.

Anchieta Campos

geuel disse...

Parabéns pelo blog, já estou sendo um seguidor dele. No meu blog http://irenovacaodafe.blogspot.com faço um estudo sobre o dízimo e as conclusões a que chego se parecem com as que o irmão tão bem colocou aqui. Pensei que estava sózinho neste pensamento, mas agora sei que existem pessoas comprometidas com a verdade em todo lugar e onde eu pensei que não houvesse , na Assembléia de Deus, encontrei o irmão com essa colocação bíblica. A paz do Senhor Jesus!

Anchieta Campos disse...

Prezado irmão Geuel, a paz do Senhor.

Parabéns pelo seu espaço. Estamos juntos em defesa da ortodoxia bíblica.

Forte abraço.

Anchieta Campos

silas disse...

A paz do Senhor irmão Anchieta.
Achei muito bonito a exposição do irmão quanto a questão do dízimo. Se fosse tão bem explicada assim, estaríamos livres de tanta formalidade.
O Senhor já estava dando ênfase a oferta, por menor que fosse - a oferta da viúva - dizendo que ela deu mais, pois dava tudo o que tinha. Por isso Jesus veio para aperfeiçoar a lei, que estava enferma pela carne.
É bom lembrar irmão Anchieta, que os irmãos da igreja primitiva davam não só dez por cento do que tinham, mas tudo que vendiam, despejavam aos pés dos discípulos.
Vemos também que o dízimo foi ab-rogado pela sua inutilidade e fraqueza, Hb.7:18.
E que a forma de contribuição para a igreja é a de 2Co.9:7 "Que cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade, porque Deus ama a quem dá com alegria." Sendo acompanhada também das bençãos sacerdotais, equivalentes ao período da lei.
Aprendi muito meu irmão; e se falo muito, é por que não suporto as vezes o legalismo de certos crentes que estão prontos para matarem as almas, por falta de discernimento bíblico.
A paz do Senhor, Silas Rodrigues

Anchieta Campos disse...

Caro irmão Silas Rodrigues, a paz do Senhor.

Obrigado pela rica e valorosa participação em meu humilde espaço. Deus o abençoe por isso. Amém.

Fico feliz por constatar que não são poucos os crentes que estão livres das tradições humanas sem respaldo bíblico. O irmão é um exemplo disso.

Que Deus o abençoe cada vez mais.

Abraço.

Anchieta Campos

Anônimo disse...

O artigo "Dízimo, graça e maldição" veio como um presente pra mim, como uma profecia que confirma em nós o discernimento do Espírito Santo. Então só resta o louvor. Amém.
Fernando Camboim

Fernando A. Lima Jr. disse...

Irmão Anchieta, achei fantástico o seu estudo sobre os dízimos. É exatamente o que penso e muitas vezes nós somos taxados como heréticos quando tocamos neste assunto.

Parabéns e que Deus o abençoe muito!

Anônimo disse...

A Paz de Cristo.

Gostei do teu comentário referente o assunto do dízimo. Concordo com você.
Escrevi um livro que será publicado este ano pela Editora Naós.
O título desse livro é: DÍZIMO X GRAÇA, O FALSO ENSINO DO DÍZIMO.

Deus o abençõe.

Azevedo

Thiago Costa disse...

Caro Anchieta, essa é a mais pura verdade sobre o dizimo, mais hoje na atualidade não tem importância nenhuma estudos assim, afinal de conta, os obreiro$ e pa$tore$"judaizantes" querem viver na lei "tradição", estamos precisando viver uma reforma no meio evangélico, mostrar que o dinheiro não é a base do cristianismo, sabe meu nobre, o que mais me entristece com tudo isso, é a falta de coragem de quem tem o conhecimento do mesmo, e para agradar o homem não ensina, muitos me disseram, sua visão não é errada, mais não adianta você falar,o povo não vão da ouvidos, e você será excluído da igreja, não vão mais deixar você pregar ministrar vão te deixar no canto, então para quer aprender e estudar, se não temos coragem de dizer aos que realmente precisam saber ? hoje exatamente hoje em ter um debate sobre dízimo na minha igreja, fui tido como um mal obreiro,e me perguntaram oque você esta fazendo na ass. de Deus ? e fui muito humilhado,vão me tirar a santa ceia, o cargo de Pb, só porque eu falei, que o dízimo, não fez parte da igreja primitiva. Pra quer estudar se não temos coragem de expor oque aprendemos?. E onde está a ordenança para o dízimo,senão no Antigo Testamento? Porque então o homem persiste em pregar e manter as ordenanças da lei,as qual foram por Jesus, abolida?. Thiago Costa, Deus te abençoe ricamente.

Anônimo disse...

Olá, a paz!

Convido o amigo a ler um TCC sobre o dízimo que está postado no site [ www.reformaja.org ] no link "arquivos": A sombra do Templo no Dízimo e na Igreja

Creio que será uma importante ferramenta para o vosso estudo/análise.

Um grande abraço!!!