sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Deus diz com quem devemos casar?

O meio pentecostal, por ser uma ala do protestantismo que crê na manifestação sobrenatural e nos dons do Espírito Santo, acaba vez ou outra, talvez por falta de uma análise e estudo mais apurado da Palavra de Deus, por se tornar um meio muito “espiritual”. Como assim? Simples: a razão, tanto humana quanto bíblica, acaba por muitas vezes sendo anulada por uma espiritualidade exagerada e infundada, irracional mesmo. E é sobre um desses pontos que eu irei tecer um breve comentário a seguir.

É de conhecimento de quase todos os evangélicos que ainda impera com muita força em nosso meio uma falsa idéia de que Deus é um “santo casamenteiro”, que designa a pessoa com quem devemos casar. Alguns vão mais longe ainda e afirmam que não há como escapar dessa vontade e escolha de Deus para a nossa vida amorosa (uma verdadeira predestinação matrimonial). O resultado disso são muitos casamentos corrompidos e desfeitos, pessoas de má-fé ou fracas de Bíblia que acabam falando em “nome de Deus”, profetizando mesmo, mas sem Deus ter falado nada, dizendo que Deus revelou que Fulana de Tal era a sua mulher reservada por Ele, ou irmãs também que usam deste artifício para tentarem laçar a quem querem, e se o irmão ou irmã não tiverem um discernimento bíblico do tema acabam mesmo entrando nesta, mesmo sem haver sentimentos e demais afinidades, e o resultado é sempre desastroso.

Oras, de cara já se percebe o absurdo que é essa idéia de Deus dizer com quem devemos casar. Isso seria invadir nosso livre arbítrio, principalmente em uma área tão íntima e importante quanto é a área emocional/afetiva. Se na própria salvação, que é o que temos de mais importante e valioso, Deus nos deixa livres para fazermos as nossas escolhas, quanto mais na área afetiva. Seria muito “bonito e interessante” um Deus que mandaria uma pessoa se casar e viver o resto de sua vida com outra que ela não ama e quer bem, que não tem afinidade íntima para tanto. Com certeza o Deus da Bíblia não age assim.

O ensino da liberdade de escolha no lado afetivo, dentre inúmeras referências e sistematizações bíblicas que existem, encontra-se de um modo mais claro e direto nas palavras de Paulo em 1 Co 7:39 que diz “A mulher casada está ligada pela lei todo o tempo que o seu marido vive; mas, se falecer o seu marido fica livre para casar com quem quiser, contanto que seja no Senhor”. Mais claro impossível. Paulo deixa claro a seriedade e firmeza da união do casamento, bem como ensina a liberdade de escolha que a mulher (e o homem também, por evidente) detém para escolher com quem casar. Perceba-se que a única ressalva que Paulo faz é “contanto que seja no Senhor”. Aqui Paulo não fala de uma escolha arbitrária de Deus, mas sim que este casamento esteja em comunhão com o Senhor, ou seja, conforme os princípios de sua Palavra e de sua vontade para uma união cristã. Na prática, o ensino de Paulo é que um crente procure se casar com uma pessoa da mesma fé (1 Co 9:5), com os mesmos princípios morais e éticos, evitando-se assim uma união com uma pessoa pecadora e ímpia, o que com certeza não é do agrado de Deus. É o que Paulo explica muito bem e de forma clara em 2 Co 6:14-17, onde ele fala do “jugo desigual com os infiéis”, realizando um paralelo entre o templo de Deus (que é o nosso corpo) e o templo dos ídolos (que é o corpo dos ímpios idólatras), entre os quais não há comunhão alguma.

E o caso de Isaque e Rebeca? Podem muitos questionar. Uma leitura atenta de Gênesis 24 demonstra claramente que Deus não forçou um casamento entre ambos, mas sempre manteve a liberdade de escolha deles.

Percebemos logo no verso 5 que a mulher a qual o servo de Abraão saíra a procura teria a sua livre escolha respeitada, ensino confirmado no versículo 8 que diz “Se a mulher, porém, não quiser seguir-te, serás livre deste meu juramento; somente não faças lá tornar a meu filho”.

A prova que o servo de Abraão fizera no versículo 14 não apoia a idéia de que a mulher que a cumprisse fosse determinada forçosamente para ser a esposa de Isaque. Essa tão famosa prova não é restritiva de pessoa, mas sim restritiva de caráter, boa vontade, generosidade e disposição de serviço, virtudes que o servo de Abraão queria que a esposa de Isaque tivesse, pois ele não iria querer que Isaque se casasse com uma mulher que não tivesse um coração generoso, bondoso, cuidadoso, bem como também não iria querer que Isaque se casasse com uma mulher preguiçosa também. É tão verdade que o mero cumprimento desta prova feita pelo servo de Abraão não seria o requisito final para a escolha da mulher de Isaque, que no versículo 21, mesmo após Rebeca já ter cumprido sem saber a prova feita entre o servo de Abraão e Deus, lemos que “e o homem estava admirado de vê-la, calando-se, para saber se o SENHOR havia prosperado a sua jornada ou não”, ou seja, mesmo após Rebeca já ter cumprido a prova do verso 14 o servo de Abraão ainda não sabia se era ela ou não a mulher ideal para Isaque.

E o que faltava? Faltava saber se ela, Rebeca, cumpria também o requisito estabelecido pelo próprio Abraão nos versículos 3 e 4, qual seja, que a esposa de Isaque fosse de sua parentela. Somente após o servo de Abraão ter a ciência de que Rebeca era da família do mesmo, foi que ele adorou a Deus (versos 23-27), em um claro sinal de que, após Rebeca ter cumprido sem saber a prova do verso 14 e ser também da família de Abraão, tudo indicava ser ela a esposa ideal para Isaque.

Deus realmente havia prosperado o caminho do servo de Abraão (v. 56), tendo ele achado uma esposa ideal para Isaque. Mas mesmo depois de tudo isso, o servo de Abraão ainda pergunta aos da casa de Rebeca se eles haveriam de concordar com a ida da mesma para ser a esposa de Isaque (v. 49), sendo que mais a frente os mesmos perguntam a própria Rebeca se ela iria com o servo de Abraão para se tornar esposa de Isaque, tendo a mesma respondido por livre vontade que sim (v. 58).

No demais, nós vemos Rebeca se interessando por Isaque ainda ao vê-lo de longe, sem mesmo saber se seria ele o filho de Abraão (vs. 64,65), bem como vemos Isaque a recebendo por mulher e a amando (v. 67), fatos estes que comprovam que houve atração, interesse, afinidade e sentimentos na relação deles.

Em suma, podemos concluir que no relacionamento em que houver reciprocidade de sentimentos, em que ambos forem crentes tementes à Palavra de Deus, com certeza este relacionamento está sob a bênção de Deus. Em caso contrário, o fracasso do relacionamento será algo quase que certo, e a bênção de Deus andará longe.

Anchieta Campos

5 comentários:

Lucimauro Marques Ferreira. disse...

Grande Anchieta.
Parabéns pelo texto,que tão claramente nos dá uma visão Biblica sobre como devemos fazer as nossas escolhas sentimentais,que por sinal cabe a nós fazermos,tenho aprendido muito com suas postagens.
A paz do Senhor.

Anchieta Campos disse...

Caro irmão e amigo Lucimauro, a paz do Senhor.

Suas palavras muito me honram e motivam.

É muito bom saber que tenho colaborado em algo com o amado irmão, o qual é um destaque da blogosfera evangélica.

Forte abraço.

Anchieta Campos

Gutierres Siqueira disse...

Anchieta, a paz!

Na minha igreja um rapaz "profetizou" que casaria com a uma garota da mocidade. Ela, porém, não aceitou. O que ele fez? "Profetizou" novamente que a mãe dessa garota morreria! Quantos absurdos!

E assim conhecemos inúmeras histórias de imaturidade e brincadeira com uma pseudo-espiritualidade.

Parabéns pelo texto!

Anchieta Campos disse...

Caro Gutierres, a paz do Senhor.

Realmente o que existe de palhaçada no meio pentecostal é algo fora de série. Digo isto com tristeza.

No caso citado por você, o "irmão" em questão estava meio que desesperado hein!? risos. Uma vez aqui em minha igreja um irmão chegou com uma conversa dessas para uma irmã, e ela respondeu que ia esperar Deus revelar para ela também. Foi um jeito delicado de se sair, mas ela bem que poderia ter sido mais grosseira, e creio que ainda estaria em seu direito.

Forte abraço e obrigado por sua ilustre visita.

Anchieta Campos

Anônimo disse...

Boa tarde, tenho uma dúvida!
Tem casos em que Deus pode não concordar com a união de duas pessoas? mesmo sendo tudo dentro do padrão bíblico?
Eu pergunto isso porque na minha igreja há o costume de orar pra namorar e às vezes, segundo estas pessoas, Deus diz não!!!
Mas há atração, há jugo igual, tipo, tudo dentro dos conformes, e ai? como que fica?