Mostrando postagens com marcador disciplina cristã. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador disciplina cristã. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Pesa mais o pecado contra a doutrina que o pecado contra a disciplina cristã

“Por doutrina falsa se deteriora a fonte da vida da igreja e da disciplina eclesiástica. Por isso, pesa mais o pecado contra a doutrina que o pecado contra a disciplina cristã. Quem rouba da igreja o Evangelho merece condenação irrestrita; quem, porém, peca em sua conduta, para esse existe o Evangelho. Disciplina doutrinária refere-se, em primeiro lugar, aos ministros encarregados de ensinar o Evangelho na igreja. (...) É dever do ministro propagar, na igreja, a reta doutrina e combater qualquer perversão. Onde se instalam heresias evidentes, o ministro ordenará que ‘não ensinem outra doutrina’ (1Tm 1.3), pois ele é portador do ministério da doutrina e tem direito de ordenar. Além disso, deverá evitar contendas de palavras (2Tm 2.14). Se for comprovada a heresia, admoeste-se o herege primeira e segunda vez; se não ouvir, rompa-se a comunhão com ele (Tt 3.10; 1Tm 6.4s.), pois ele seduz a igreja (2Tm 3.6s.)”.

Dietrich Bonhoeffer*, Discipulado, p. 193-194.

Como discordar deste nobre teólogo e pastor luterano? Não há como!

*Dietrich Bonhoeffer (Breslau, 4 de fevereiro de 1906 – Berlim, 9 de abril de 1945) foi um teólogo, pastor luterano, membro da resistência alemã anti-nazista e membro fundador da Igreja Confessante, ala da igreja evangélica contrária à política nazista. Fonte: Wikipédia.

Anchieta Campos

sábado, 30 de maio de 2009

A disciplina eclesiástica local e a comunhão com Deus

Quem é evangélico sabe que existe em nosso meio o instituto da “disciplina”, o que nada mais é do que uma sanção aplicada pelo pastor local (na maioria das vezes com o prévio aval do presbitério) a determinado membro ou grupo de membros da igreja local. Pelo fato de já ter presenciado e tido notícia de diversas disciplinas sentenciadas sobre membros, pelos mais variados motivos, e com as mais variadas sanções e resultados sobre a vida dos “condenados”, deliberei realizar esta pequena análise sobre o tema, notadamente enfocando qual a relação de uma disciplina aplicada por um líder eclesiástico local, com a vida espiritual do “apenado”.

Primeiramente tem que se destacar que o protestantismo está voltando a sofrer (ou ainda sofre) com uma nada boa herança do catolicismo romano, que é a falsa idéia de que o líder eclesiástico tem o poder de determinar quando certo membro está ou não em comunhão com o Corpo de Cristo, e, por sua vez, em comunhão com Deus. É isso mesmo! Temos em nosso meio os papas evangélicos! Muitos líderes pensam que tem a chave de Mt 16:19! Sei que é meio absurdo e até cômico (realmente romanismo no seio protestante é absurdo e cômico!), mas é uma realidade patente em nosso meio.

O exemplo maior desta realidade é a proibição do membro em disciplina de participar do pão e do vinho na Santa Ceia. Oras, quem é o líder local para dizer se o membro está ou não em comunhão com Deus e com os irmãos? É por acaso ele Deus para conhecer o coração de “suas” ovelhas? Não estou aqui menosprezando e nem desmerecendo a figura das igrejas locais e dos seus líderes (ver meu artigo Em defesa da igreja local), muito menos dizendo para a igreja local ser benevolente com o pecado (ver meu artigo O crente e o pecado), mas apenas que se saiba tratar o pecado do modo que é para ser. Se o pecado foi público e notório para toda a igreja e sociedade próxima, tudo bem ser repreendido (conforme o seu grau) de um modo que a igreja local perceba que houve uma medida de coibição, que o pecado não fora tolerado (cf. Rm 16:17; 1 Co 5:1-5; Gl 2:11-14), e para isto não é necessário proibir o irmão de participar da Santa Ceia, pois isto foge da atribuição do pastor, sendo algo estritamente entre o crente e Deus (ver meu artigo Compreendendo a Santa Ceia). Se o pecado não é público e notório para a igreja, sendo conhecido apenas da liderança ou de alguém próximo, e o crente insiste em permanecer no erro, aplica-se, por analogia, o disposto em Mt 18:15-17. Destaque-se que em relação aos presbíteros (leia-se líderes), a recomendação bíblica é de uma repreensão sempre pública, apenas com a ressalva de não ser uma acusação feita por uma pessoa só (1 Tm 5:19,20); o que vem a ser justo, haja vista a posição que eles ocupam, bem como a responsabilidade que carregam.

A disciplina basilar sobre a temática em questão se encontra em Hb 12:5-11: “E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como filhos: Filho meu, não desprezes a correção do SENHOR, e não desmaies quando por ele fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama, e açoita a qualquer que recebe por filho. Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos; porque, que filho há a quem o pai não corrija? Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes, sois então bastardos, e não filhos. Além do que, tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos, para vivermos? Porque aqueles, na verdade, por um pouco de tempo, nos corrigiam como bem lhes parecia; mas este, para nosso proveito, para sermos participantes da sua santidade. E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” (cf. Ap 3:18-20). A disciplina que vem a ser o reflexo da comunhão com Deus, por evidente, apenas pode partir do próprio Deus! Por mais que o exterior possa ser um reflexo do interior de uma pessoa, o mesmo é enganoso em ambos os sentidos, sendo que o que define realmente uma pessoa para com Deus é o seu interior (1 Sm 16:7; 2 Co 5:12; Gl 2:6; Cl 2:23; 3:22; 2 Tm 3:5). Por isso que o julgamento de uma pessoa deve se iniciar sempre pela doutrina que a mesma professa (Rm 16:17; Ef 4:14; 1 Tm 1:3,10; 4:1,6; 6:3-5; 2 Tm 4:3,4; Tt 1:9; Hb 13:9; 2 Jo 1:9,10; Ap 2:14,15), sendo que os atos condenáveis (Gl 5:19-21; Ap 21:8; 22:15) não são necessariamente o estado permanente e imutável de uma pessoa, cf. 1 Co 6:9-11; Ef 2:2,3; 5:8; Cl 1:21; 3:5-8; Tt 3:1-5. Lembremo-nos apenas do exemplo da mulher do vaso de alabastro em Lc 7:37-50, a qual fora julgada como pecadora pelo fariseu (v. 39), mas que já havia entrado na casa arrependida (v. 38), tendo alcançado o perdão dos seus pecados (v. 48) e a paz (v. 50).

Portanto, não é uma disciplina humana/eclesiástica, algumas vezes motivada por motivos espúrios e egoístas, que irá definir a bênção ou a maldição sobre a vida de um membro local, que irá definir se um cristão está ou não em comunhão com Deus; não cabe ao líder local definir se um membro pode ou não cear! Não há espaço no protestantismo para um “papa evangélico”, detentor das chaves do céu, que liga e desliga o vínculo de uma pessoa com Deus na hora que bem quiser, que excomunga ao seu bel prazer. Não!

“Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência” 36ª Tese de Lutero.

Anchieta Campos